Fly me to the Moon

Bom dia! Aqui é a Meghie Rodrigues e hoje vamos falar de coisa boa: tem astronauta de volta à Lua e, finalmente, pesquisadores de pós-graduação estão prestes a ser reconhecidos como gente — opa, trabalhadores — no Brasil

Bom dia! Aqui é a Meghie Rodrigues e hoje vamos falar de coisa boa: tem astronauta de volta à Lua e, finalmente, pesquisadores de pós-graduação estão prestes a ser reconhecidos como gente — opa, trabalhadores — no Brasil. Na nota do convidado, o biomédico Vinicius Pietta alerta sobre a resistência a antibióticos, um problema crescente que vai causar muito estrago se as autoridades não ficarem atentas. Boa terça e boa leitura!

De volta à Lua
Na quarta-feira passada, a Nasa enviou quatro astronautas de volta à Lua a bordo da espaçonave Orion, que está passando pelo entorno do nosso satélite e promete imagens espetaculares (já temos algumas). A viagem faz parte da missão Artemis II, a primeira tripulada a passar da órbita baixa da Terra desde a Apollo 17, em 1972. A ideia é ver (melhor) a parte escura da Lua e capturar imagens nunca antes vistas de sua superfície. A jornada de 10 dias é um passo importante nos planos da Nasa para ocupar a Lua de forma permanente, já que testa a resistência da Orion à radiação solar no espaço sideral e como o corpo dos astronautas muda antes e depois da viagem. 

Impressionante
Muito legal é que, entre os quatro tripulantes, estão Christina Koch, que tem o recorde de maior tempo no espaço feito por uma mulher (328 dias!), e Victor Glover, piloto da missão, que será o primeiro astronauta negro a orbitar a Lua. E isso está acontecendo em meio ao caos de uma administração Trump 2 — o que é, no mínimo, impressionante. Também impressiona que em pleno 2026 cerca de um em cada três brasileiros (!) não acredita que a humanidade tenha mesmo chegado à Lua quase 60 anos atrás. Quem fala sobre isso (e sobre confiança na ciência, desinformação e uso político da ignorância) é o (queridíssimo) Yurij Castelfranchi, professor da UFMG, em entrevista ao podcast Café da Manhã, da Folha, desta segunda-feira. Vale muito a pena ouvir! 

Avanço histórico
Por falar em grandes feitos, estamos caminhando para um aqui no Brasil. A Câmara dos Deputados aprovou recentemente o projeto de lei 255/2023, que prevê a inclusão de bolsistas de pós-graduação como segurados obrigatórios da Previdência Social. Se aprovado pelo Senado, o PL garantirá que o tempo de pesquisa passe a contar como contribuição para aposentadoria sem redução no valor das (já magras) bolsas de estudo. Vale acompanhar.

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NOTA DO CONVIDADO ✷

Uma morte em 1939, um alerta sobre antibióticos em 2026

Por Vinicius Pietta Perez, biomédico, doutor em Ciências da Saúde, e professor de Microbiologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Rio de Janeiro, 17 de outubro de 1939. As primeiras páginas dos jornais destacam as movimentações europeias nos meses iniciais da Segunda Guerra Mundial. O Brasil, ainda neutro, acompanha à distância. No mesmo dia, longe das manchetes, Julieta Ribeiro, aos 32 anos, era internada no Hospital São Francisco de Assis com febre alta e complicações de uma gravidez interrompida.

Seu caso seria descrito em publicação nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz em 1944 pelos médicos José Guilherme Lacorte e Mario Santos, ao mesmo tempo em que soldados brasileiros já combatiam na Itália. Julieta não chegou a saber que o país entraria na guerra. Morreu no dia seguinte à internação, vítima de uma infecção generalizada por estreptococos.

Ao final da guerra, o mundo já não era o mesmo de 1939. Entre tantas transformações, uma das mais silenciosas e profundas ocorreu na medicina. Antibióticos como a penicilina passaram a fazer parte da prática clínica. Infecções antes fatais, como a de Julieta, tornaram-se tratáveis.

Hoje, é difícil dimensionar o impacto dos antibióticos na sociedade moderna. Eles sustentam desde procedimentos simples até os mais complexos tratamentos hospitalares. O uso desses medicamentos cresceu de forma expressiva e estima-se que, diariamente, 15,2 pessoas a cada mil recebam antibióticos. No Brasil, entre 2016 e 2023, o consumo aumentou 45%. Entre gestantes, mais da metade receberá ao menos uma dose ao longo da gravidez.

O problema é que, cerca de 80 anos após sua introdução, a eficácia dos antibióticos está sob ameaça. O avanço das bactérias resistentes começa a corroer, de forma silenciosa, uma das maiores conquistas da medicina. 

O estreptococo do grupo B segue como causa relevante de infecções no período perinatal, afetando mães e, sobretudo, recém-nascidos. Em um estudo conduzido entre 2020 e 2024 com gestantes em João Pessoa, publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, observamos um aumento preocupante na resistência a antibióticos da classe dos macrolídeos.

O dado chama a atenção por um motivo simples: esses antibióticos não são, em geral, utilizados no tratamento dessas infecções. A explicação não está no uso direto, mas no ambiente coletivo. O período analisado coincide com a pandemia de COVID-19. Em 2020, o uso de macrolídeos, como a azitromicina, foi 1,7 vez maior do que no ano anterior, enquanto outros antibióticos mantiveram estabilidade ou até tiveram redução em seu consumo. 

Bactérias não respeitam fronteiras: circulam entre pessoas, adaptam-se e trazem consigo mecanismos de resistência. O uso ampliado de um antibiótico, mesmo fora de sua indicação principal, pode selecionar as resistentes que se disseminam silenciosamente na população.

O que se vê hoje é, em parte, o resultado de decisões tomadas sob pressão, desinformação e ausência de coordenação. Estamos, pouco a pouco, perdendo a eficácia dos antibióticos — não por falta de tecnologia, mas por uso inadequado.

A resistência bacteriana não surge apenas onde o antibiótico é usado para tratar; ela emerge onde ele é usado sem necessidade. No caso da azitromicina, o que muitos consideraram uma medida inofensiva durante a pandemia contribuiu para um efeito colateral duradouro que hoje ameaça gestantes e recém-nascidos.

Sem uma mudança imediata e consistente no uso desses medicamentos, corremos o risco real de retornar a um tempo em que infecções hoje controláveis voltarão a ser fatais. Histórias como a de Julieta, que pertencem ao passado, podem deixar de ser exceção e voltar a fazer parte do presente.


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