Bem tranquilo, graças a Deus!

Só coisas leves (e notícias apocalípticas)

Bom dia! Aqui é a Chloé Pinheiro, diretamente de Barcelona – vim cobrir um congresso sobre doenças do fígado. Hoje falamos de ebola, pandemias, El Niño... Só temas tranquilos, ainda bem! Mas a nota do convidado é mais felizinha: a Aline Ghilardi comenta o retorno do dinossauro Irritator Challengeri ao Brasil.

Ebola 
Depois do hantavírus, veio aí um surto de ebola, doença viral também de alta letalidade e que se transmite entre pessoas. Mais de 900 casos suspeitos e 200 mortes já foram reportados no Congo, e alguns poucos na vizinha Uganda. Mas calma: o ebola até se espalha mais fácil do que o hantavírus, porém ainda não tanto quanto um vírus respiratório. De tempos em tempos, surtos do tipo surgem, e a situação preocupa, claro, mas não se espera que ele cause uma próxima pandemia. O surto atual tem sido marcado por violência e ataques a unidades de saúde.

Emergência internacional
Por conta do surto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou estado de emergência de saúde pública de interesse internacional. Nos comentários de matérias e postagens sobre o assunto, o pessoal já deu aquela surtada dizendo que só queriam gerar pânico na população – ou, ao contrário, que a OMS estava escondendo a real gravidade da situação. Mas não é nada disso: a medida é mais burocrática para lançar mão de mecanismos de vigilância e facilitar transferências de recursos. 

Próxima pandemia 
Para confundir ainda mais, o Comitê de Monitoramento de Preparação da OMS, que avalia se os países estão aptos para enfrentar surtos de doenças, lançou um relatório afirmando que o mundo está prestes a viver uma nova pandemia, e menos preparado para isso do que antes da covid-19. Algumas manchetes uniram o documento ao ebola, e aí já viu. Só que o comitê não tem um vírus específico em mente. O que o documento diz é que não estamos preparados adequadamente e que vírus e bactérias estão se disseminando mais rápido hoje em dia. Falta financiamento e sobram ameaças em potencial. Fiquemos de olho! 

Super El Niño 
Vocês lembram que há algumas semanas a gente mandou outro “calma, gente”, mas relacionado ao El Niño? Pois agora sim é hora de começar a ligar o alerta. Na semana passada, foi divulgada pelo centro de pesquisas sobre o clima da Universidade de Columbia a chamada pluma dos modelos – isto é, uma análise que leva em conta os principais modelos matemáticos que fazem a previsão do clima nos próximos meses. E tudo indica que sim, teremos mesmo um El Niño intenso. Não se sabe o quão intenso, mas o Brasil deve sofrer algumas de suas consequências a partir de setembro e até o meio do ano que vem. Entre elas, eventos extremos de chuva no Sul, seca no Norte e no Nordeste e calor no Brasil inteiro.

calendário de eventos
  • Acontece de 01 a 06/06 o Rio Nature and Climate Week.
  • Webinar gratuito no dia 28 discute as lições de comunicação de crise do caso Césio-137.
  • O cinema científico dessa semana do Instituto Principia exibe o clássico Gravidade.

Você viu?

  • O Brasil ganhou seu primeiro polo público de inovação radical em saúde.
  • Anunciados os vencedores do Prêmio José Reis de Divulgação Científica. Parabéns ao Bernardo Esteves e à Pesquisa Fapesp.
  • Novo relatório estima 22 milhões de mortes durante a pandemia de covid-19.
  • O diabo usa química.
  • Brasileiras descobrem vida a 100°C.
  • Os desenhos mais antigos do mundo.
  • De cortar o coração essa matéria que mostra os efeitos da devassa de Trump na ciência.

NOTA DO CONVIDADO ✷

O retorno do dinossauro irritante

Por Aline Ghilardi, paleontóloga e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Irritator talvez nunca tenha feito tanto jus ao próprio nome.

Nos últimos anos, esse dinossauro brasileiro irritou muita gente: irritou quem acha normal que fósseis de países do Sul Global circulem pelo mundo sem questionamentos; irritou quem prefere tratar patrimônio científico como mercadoria; irritou quem se incomoda quando brasileiros começam a perguntar onde estão seus fósseis e como eles saíram daqui; irritou colegas cientistas, brasileiros e estrangeiros, ainda profundamente mergulhados em lógicas coloniais. Questionar velhas estruturas de poder incomoda.

Agora, o anúncio de seu retorno ao Brasil marca mais uma vitória importante. Junto ao seu “primo” Ubirajara e a tantos outros fósseis recentemente repatriados, Irritator tornou-se símbolo de algo maior. Quando decidimos iniciar campanhas denunciando o tráfico e a retirada desigual de fósseis brasileiros, muita gente tratou o tema como exagero (“era melhor que ficassem lá fora”, disseram). Mas o debate cresceu e tornou impossível ignorar que existe um problema estrutural.

Essa é uma vitória não apenas científica, mas também política. Política porque a ciência não acontece no vácuo. Fósseis também contam histórias sobre poder, desigualdade e sobre quem historicamente teve o direito de ocupar o centro das narrativas científicas.

Irritator não estaria voltando sem pressão pública. Antes de chegar às mesas diplomáticas, esse debate passou pelas redes sociais, por abaixo-assinados e por milhares de pessoas insistindo que esse patrimônio importa. Foi uma mobilização coletiva que tirou esses fósseis da invisibilidade e os transformou em pauta pública. É uma vitória construída a muitas mãos.

O retorno de Irritator importa porque representa um grito de basta contra desigualdades históricas que prejudicam não apenas países e comunidades, mas a própria ciência. Importa porque ajuda a fortalecer museus brasileiros, valorizar pesquisadores locais e inspirar novas gerações. Importa porque tem potencial para transformar realidades (como já vem acontecendo com Ubirajara no Cariri). E importa, sobretudo, porque devolve a um povo parte do direito de contar sua própria história.


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