Ivermectina, o retorno

Antiparasitário volta às redes sociais como "cura milagrosa", dessa vez contra o hantavírus. Que déjà vu indigesto, não?

Bom dia! Aqui é a Meghie Rodrigues falando praticamente apenas de vírus e bactérias hoje. Temos a confirmação de contaminação por P. aeruginosa em produtos da Ypê (com gente bebendo e tomando banho de detergente), mais boatos sobre ivermectina como remédio milagroso, e um surto de ebola que está deixando a OMS com os cabelos em pé (e deveria deixar todas as autoridades sanitárias mundo afora também, para a nossa segurança). Para não ficar só em susto, na nota do convidado temos Carlos Fioravanti, que foi um dos editores da revista Pesquisa Fapesp por muitos anos, falando para a gente sobre o recém-centenário David Attenborough. Boa leitura!

Encontraram a bactéria
Semana passada, a Anvisa confirmou a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em mais de 100 lotes de produtos de limpeza da marca Ypê. No início do mês, a agência já havia determinado o recolhimento de produtos com lote terminado em 1, além de suspender a fabricação, a comercialização, a distribuição de produtos da marca. A P. aeruginosa é uma bactéria comum que vive em áreas úmidas (como lavatórios e vasos sanitários), mas é oportunista e pode causar infecções em pessoas imunossuprimidas. Dependendo da área afetada, a bactéria pode causar infecções leves (como de ouvido) ou graves (chegando aos pulmões, à corrente sanguínea ou às válvulas do coração). 

Bebendo detergente
No Rio Grande do Norte, há suspeita de infecção em uma criança de 10 anos. Uma pergunta válida que muita gente se faz em meio a esse quiproquó todo é: como uma bactéria sobrevive em um detergente? Bom, ao contrário de vírus, bactérias não são envoltas por uma capa de gordura (caso do coronavírus, por exemplo) e, por isso, se adaptaram para sobreviver em ambientes que em princípio seriam nocivos para elas. Quem parece não ligar muito pra isso é o pessoal que está bebendo detergente desse lote para provar que é seguro — o que prova que nem detergente consegue ser neutro no Brasil de 2026. Que quadra da história, meus amigos.

Ressuscitaram a ivermectina 
A ivermectina, antiparasitário eficaz contra doenças como filariose linfática e ascaridíase (lombriga), voltou às redes sociais como “cura milagrosa”, dessa vez contra o hantavírus. Segundo alegações de uma médica que foi suspensa do hospital onde trabalha por disseminar desinformação na pandemia, a ivermectina inibiria a replicação viral porque impediria que vírus de RNA entrem no núcleo das células. O problema é que o hantavírus não se replica no núcleo, mas no citoplasma das células. A checagem da AFP rebateu outras besteiras sobre isso também. Que déjà vu indigesto, não?

Emergência global
Nos últimos dias, República Democrática do Congo e Uganda registraram mais de 80 mortes (e 246 casos suspeitos) de infecção por ebola. O conflito no leste do Congo (além da movimentação corriqueira entre pessoas entre fronteiras) amplia o risco de disseminação do vírus e a OMS declarou estado de emergência global em razão do surto. Este é o 17º surto no Congo desde 1976 e o último terminou em dezembro passado. A declaração é um chamado à ação por parte da OMS para que os países ajam para evitar que o vírus se espalhe. Esta cepa do ebola, a Budinbudyo, não parece ser tão letal, mas, por não ser tão conhecida (como a do zaire), não tem vacina nem tratamento específico (por isso a emergência).

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NOTA DO CONVIDADO ✷

Um Sir, com o olhar de menino

Por Carlos Fioravanti, jornalista e editor de ciência

O que sempre me impressionou no agora centenário apresentador de TV Sir David Attenborough é que ele, mesmo depois de décadas no ar, não perdeu o encantamento do menino que chega correndo trazendo um lagarto, um sapo ou um bicho qualquer que acaba de descobrir no quintal – no caso dele, o quintal era o mundo.

Por ser naturalista, David Attenborough sabe muito de biologia e geologia – além disso, ele começou um curso de Antropologia Social, em um breve período que havia deixado a BBC, mas não concluiu porque a emissora o chamou novamente. Mesmo assim, aparentemente ele não quer ensinar nada nos documentários que ainda podem ser vistos pelo YouTube; um deles informa que ele percorreu cerca de 400.000 quilômetros em 40 países, incluindo o Brasil, com direito a se perder na floresta Amazônica. 

Ele apenas mostra e descreve os animais e plantas diferentes que encontrou em lugares que dificilmente visitaremos, como as florestas da Tasmânia, deixando para quem o assiste pensar o que quiser, até mesmo ideias com as quais não concorda. Ele raramente falou de evolução e, fora dos documentários, criticou o criacionismo. 

David Attenborough parecia querer também se divertir, sempre que possível, como quando imita o som de aves e lobos, para ver se respondiam – e eis que os lobos, em meio à neve, respondem a seu chamado! 

Em um dos episódios da série Life on Earth, ele se aproxima calmamente de gorilas-da-montanha de Ruanda, tenta se comunicar com eles e, em um momento grandioso, deixa um deles se deitar sobre seu peito, enquanto uma fêmea põe a mão sobre sua cabeça, indicando que poderia ser incorporado ao grupo, ainda que fosse um bicho esquisito, branquelo e quase sem pelos. 

As brincadeiras e experiências não tiravam sua autoridade. Ao mostrar a natureza de perto e desfazer equívocos – pensava-se, por exemplo, que os gorilas seriam uma espécie agressiva –, David Attenborough se tornou um porta-voz mundial sobre conservação ambiental e mudanças climáticas. Em busca de conselhos, o presidente norte-americano Barack Obama o convidou para uma conversa na Casa Branca em 2015.

Seu estilo amigável, experimentador e despojado faz pensar se não poderíamos melhorar a forma de produzir o noticiário sobre ambiente e, de modo mais amplo, sobre ciência e tecnologia, no Brasil. Às vezes tenho a impressão de que estamos sendo sérios demais ou professorais demais, perdendo oportunidades de nos divertir e experimentar. Será, talvez, que a preocupação em explicar não estaria afugentando a beleza e a emoção do que estamos narrando? Será que apagamos o entusiasmo que sentimos quando éramos meninos e meninas e vimos, pela primeira vez, uma iguana?


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