Bom dia! Aqui é a Chloé Pinheiro. Hoje trazemos desdobramentos do caso da polilaminina e da relação entre Jeffrey Epstein e cientistas, além de notícias sobre a chuva em Minas Gerais e sua relação com as mudanças climáticas. Tem também boas oportunidades para comunicadores de ciência, pesquisadores e fãs de física. Na nota do convidado, o André Bacchi discute mais sobre a polilaminina. Sim, vamos ter que falar muito disso ainda!
Toda terça e quinta, as jornalistas Carol Pires e Marina Dias explicam política de um jeito descomplicado, como um papo entre amigas.
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Polilaminina
Depois da participação polêmica de Tatiana Coelho Sampaio, a cientista criadora da polilaminina, no Roda Viva, da TV Cultura, o assunto entrou de vez no debate público. Um dos pontos mais sensíveis foi uma fala onde a pesquisadora minimiza a necessidade de um grupo controle nos estudos com humanos – voluntários que recebem um placebo ou a intervenção padrão para compará-la com o potencial medicamento. Tá tudo bem explicadinho nesse vídeo aqui e nesse. E nesse. Outra questão que circulou bastante foi uma fake news sobre a perda da patente internacional da molécula.
Epstein files
O Prêmio Nobel de Medicina Richard Axel anunciou que vai deixar o cargo de codiretor de um instituto da Columbia University após sua relação com Jeffrey Epstein ter sido exposta. Há algumas semanas, a Meghie contou aqui que outro Nobel, Murray Gell-Mann, também está na lista de contatinhos científicos do Epstein. E na semana passada foi revelada até uma foto do Stephen Hawking cercado de mulheres no que parece ser uma festa do abusador sexual. Para aliviar um pouco o clima, a Science traz essa matéria de cientistas que disseram não a Epstein. Se quiser ler mais sobre o assunto, tem esse bom texto da Scientific American.
Chuvas em Minas Gerais
As chuvas que atingiram a Zona da Mata em Minas Gerais na última semana causaram mais de 70 mortes e ainda há desaparecidos. Sempre bom lembrar que esses desastres não são "naturais". Trata-se de mais um exemplo da nossa inação quando o assunto é adaptação às mudanças climáticas. Ora, o governo de Minas Gerais reduziu em mais de 90% o seu orçamento para ações de combate e prevenção dos danos das chuvas. E um levantamento recente, do ClimaMeter, mostra que o aquecimento global intensificou em 20% as chuvas extremas que assolaram a região.
Mais sobre a Fapesp
O anúncio do fim da versão impressa da Revista FAPESP gerou muita mobilização entre os cientistas e comunicadores da área, como contou a Meghie na semana passada. A Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência (Rede ComCiência) lançou um manifesto contra a decisão acompanhado de uma carta de apoio que já conta com mais de mil assinaturas. Passe por lá para dar seu apoio também!
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NOTA DO CONVIDADO ✷
Polilaminina: entusiasmo não é evidência
Por André Bacchi, farmacêutico, divulgador científico e professor adjunto de Farmacologia e Epidemiologia clínica da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR). Autor dos livros "Porque sim não é resposta!" (EdUFABC), “Afinal, o que é Ciência?...e o que não é" (Editora Contexto) e “Manual Prático do Picareta em Saúde (Clube de Autores).
Nos últimos dias, a polilaminina ocupou o topo dos comentários nas redes sociais, na mídia como um todo e chegou até o Judiciário. Tudo ao mesmo tempo. A substância tem resultados preliminares promissores: em um estudo com oito pacientes com lesão medular completa, seis recuperaram algum movimento e um voltou a andar. O resultado chama a atenção e merece celebração.
Mas o que tem acontecido depois é um exemplo clássico do que acontece quando o entusiasmo com o uso de uma substância ultrapassa as evidências que suportariam este uso: a inversão do ônus da prova.
A fase 1, aprovada pela Anvisa em janeiro de 2026, envolve poucos pacientes e tem um objetivo específico: entender se a substância é segura. Não se sabe ainda a dose ideal, os efeitos adversos em escala e nem mesmo a eficácia em humanos (sem comparação a um grupo controle não há como estimar nem a existência e nem o tamanho do benefício). As sociedades médicas e científicas pedem cautela e são rechaçadas por isso como se estivessem “torcendo contra” ou “diminuindo uma conquista”.
Temos que tomar mais cuidado com a tendência de cobrar da ciência um ritmo que corresponda à nossa percepção subjetiva (e errada) sobre como o conhecimento científico é produzido. A ciência não funciona assim e nunca funcionou.
