Bom dia! Aqui é a Meghie Rodrigues e hoje trago novas sobre sapinhos, oropuche, polilaminina, e trago coisas não tão novas sobre o Dia Internacional da Mulher — que, cá pra nós, como um dia em que os homens se lembram que devemos ser respeitadas, deveria ser todo dia. Na nota da convidada, Janina Onuki fala sobre os impactos que a guerra no Irã pode ter sobre a ciência mundialmente. Esta é a edição de terça-feira, dia 10 de março de 2026. Boa leitura!
Deveria ser todo dia
Domingo foi dia 08 de março, o Dia Internacional da Mulher. Sim, estamos vendo uma onda de feminicídios, trends estimulando violência de gênero nas redes sociais, e ataques a pesquisadoras respeitadíssimas só pelo seu jeito de ser. Mas também relembramos mulheres apagadas da história da ciência e celebramos cientistas inspiradoras. O caminho é longo e cansativo, mas há avanços. E precisamos lembrar deles para não desanimar.
Imunidade materna contra o oropuche
Um estudo do IB-Unicamp encontrou uma coisa muito legal: mesmo que o vírus oropuche infecte uma mulher grávida, não causa danos ao feto. Em contato com o vírus, o sistema imunológico da mãe é ativado e ajuda a frear a multiplicação do oropuche — que causa sintomas parecidos com os da dengue: dor de cabeça intensa, dor muscular, náusea e diarreia.
Ainda a polilaminina
Em entrevista ao Estadão, Paulo Louzada, neurocirurgião e professor da UFRJ que acompanhou de perto o “nascimento” da polilaminina, contou que saiu da pesquisa há alguns anos por não concordar com a metodologia do estudo. Ele também teme que o hype no entorno da molécula mais atrapalhe que ajude a pesquisa. Tatiana Sampaio também veio a público para dizer que está revisando o pré-print publicado em 2024 para melhorar a descrição dos resultados (mantendo as conclusões da pesquisa).
Sapinhos
Boas notícias do front dos anuros. Uma é que pesquisadores descobriram uma nova espécie de perereca no noroeste de Minas Gerais. Habitante do Cerrado, a Ololygon paracatu tem entre 20 e 35 milímetros (e já chega em um habitat ameaçado, como sabemos). No Panamá, uma força-tarefa está tentando devolver o sapo dourado panamenho à natureza. O sapinho foi praticamente extinto em 2009 por causa de uma doença fúngica que se espalhou pelo Panamá.
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NOTA DA CONVIDADA ✷
Um novo velho mundo
Por Janina Onuki, professora titular do Departamento de Ciência Política da FFLCH-USP, coordenadora da Comissão de Pesquisa e Inovação do Instituto de Estudos Avançados da USP
Estamos de volta ao velho mundo. Após um longo período de crença na paz, no regionalismo e no multilateralismo, retornamos a tempos marcados pelo unilateralismo e pela emergência de conflitos armados em grande escala. Francis Fukuyama anunciou o “fim da história”. A história, contudo, pode até parecer que se encerra — mas sempre recomeça. E recomeçou, desta vez, minando de maneira desalentadora o papel das organizações internacionais.
O que esperar quando nos deparamos com um quadro da ordem internacional como este? Quais são as bases ou os mecanismos capazes de retomar a perspectiva de cooperação entre os povos? A literatura de relações internacionais aponta alguns caminhos. O mais problemático deles é quando a superação do conflito se dá por meio da derrota de uma das partes, seguida da imposição de novas bases de cooperação.
Outro caminho, legítimo e funcional em determinados contextos, é o uso da mediação internacional. O desafio, nesse caso, é encontrar países que reúnam simultaneamente envergadura política e neutralidade suficientes para cumprir essa missão. Em tempos de polarização, ambos os requisitos — envergadura e neutralidade — tornaram-se recursos escassos.
Uma terceira vertente reside na mobilização de atores não estatais nos países envolvidos nos conflitos. Essa abordagem ficou conhecida como diplomacia multinível e envolve uma ampla gama de segmentos da sociedade.
Mais recentemente, a literatura tem destacado um grupo particularmente relevante nesse contexto: a comunidade científica. Diferentemente de muitos outros atores, os cientistas operam, de forma intensa, por meio de redes internacionais e esquemas de cooperação global. Essas relações são consolidadas ao longo de anos — muitas vezes décadas — de trabalho conjunto.
Quando eclode um conflito, essas redes não se desfazem automaticamente. A confiança tende a perdurar justamente porque se baseia em relações de longo prazo. Como sugere o ditado popular, é melhor fazer amigos antes de precisar deles. Assim, mesmo em momentos de tensão, essas pontes — não físicas, mas institucionais e pessoais — permanecem e podem oferecer condições básicas para a restauração de relações diplomáticas entre países em conflito.
Esse fenômeno tem sido denominado diplomacia científica — mais especificamente, “ciência para a diplomacia”. Trata-se da situação em que cientistas e acadêmicos desempenham um papel que, em princípio, caberia aos diplomatas: manter canais de diálogo e cooperação abertos em contextos de crise.
Os cientistas também contribuem por meio da chamada “ciência na diplomacia”. Nessa modalidade, o conhecimento científico e o diálogo com especialistas são mobilizados para subsidiar a formulação de acordos e regimes internacionais. Nessas diferentes frentes, os cientistas tornam-se, ainda que indiretamente, agentes da paz e da cooperação.
É evidente que sempre existe o risco de que a ciência seja mobilizada para fins militares, alimentando conflitos e ampliando disputas por poder relativo. Esse risco, contudo, tem sido progressivamente mitigado pela criação, nas universidades, de estruturas institucionais voltadas à integridade da pesquisa.
Esses escritórios não apenas zelam pela prevenção de fraudes acadêmicas, mas também supervisionam acordos de cooperação internacional, buscando evitar usos militares indesejáveis do conhecimento produzido. A atuação consistente dessas estruturas institucionais pode transformá-las em importantes vetores da cooperação internacional — algo cada vez mais necessário nos tempos que correm.