Estamos vivendo o dia da Marmota

Novo relatório da ONU sobre o estado global do clima sugere que sim, estamos em um eterno loop de dias da Marmota

Bom dia! Aqui é a Meghie Rodrigues e hoje vamos falar de uma mudança importante na premiação mais engraçada da ciência, um anúncio da Anvisa sobre Mounjaro, uma descoberta de outro mundo (desculpem, não resisti!), e mais um alerta da ONU sobre o clima, no que parece realmente um prenúncio de que todos somos personagens do filme “Não Olhe Para Cima". Na nota do convidado, o ecólogo Alexandre Uezu aproveita que domingo foi o Dia Mundial da Água para falar sobre outro relatório da ONU — dessa vez, sobre falência hídrica e sistema Cantareira (além de possíveis soluções). Boa leitura!

Ig Nobel refugiado
Depois de 35 anos celebrando pesquisas que “primeiro te fazem rir, depois te fazem pensar", o Ig Nobel terá sua cerimônia de premiação fora dos EUA. Segundo o matemático Marc Abrams, fundador e mestre de cerimônias do IgNobel, o evento deste ano será em Zurique (Suíça) porque visitar os EUA “deixou de ser seguro para nossos convidados. Não podemos, em sã consciência, pedir que os novos ganhadores, ou os jornalistas internacionais que cobrem o evento, viajem para os EUA em 2026." A entrega do prêmio ocorrerá alternadamente entre Zurique e outra cidade europeia nos próximos anos.

Mounjaro multidose no Brasil
Semana passada, a Anvisa aprovou o Mounjaro multidose no Brasil. Ou seja: a medicação, que antes vinha em canetas de aplicação única, agora pode ser comercializada em canetas de várias doses. A tirzepatida, princípio ativo do remédio, atua sobre hormônios que regulam a glicose e o apetite, e é indicada para o tratamento de obesidade e diabetes tipo 2. O Brasil é um dos países que mais fazem buscas sobre Mounjaro (e Ozempic) na web e pesquisadores alertam para os riscos de usar esses remédios com fins estéticos — principalmente porque ainda nem deu tempo para avaliar efeitos a longo prazo. 

Sopa de letrinhas espacial
Pesquisadores japoneses identificaram todas as cinco bases nucleotídicas necessárias para a formação de DNA e RNA (A, G, C, T, U) em amostras do asteroide Ryugu, que aterrissaram por aqui em 2020 (coletadas pela missão Hayabusa2, da agência espacial japonesa JAXA, entre 2018 e 2019). A notícia é MUITO legal, mas não quer dizer que encontramos evidências de vida fora da Terra (não havia DNA e RNA “prontos” no asteroide, só as bases mesmo). O estudo saiu na revista Nature Astronomy em 16 de março.

Alerta da ONU (mais um)
A Organização Meteorológica Mundial publicou ontem o relatório "Estado do Clima Global 2025". Segundo o relatório, a diferença entre calor absorvido e liberado na Terra é a maior já registrada. Em comunicado oficial, o secretário-geral da ONU, António Guterres, ressaltou que “todos os principais indicadores climáticos estão em alerta vermelho" (vamos lá: vermelho é generosidade do secretário. Os indicadores estão brilhando em roxo e púrpura mesmo). O mundo está falhando em cobrar ações efetivas do andar de cima e, enquanto isso, a crise se acelera. A coisa tá feia, mas soluções existem e estão aí para ser postas em prática. 💡

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NOTA DO CONVIDADO ✷

Vai faltar água?

Por Alexandre Uezu – doutor em Ecologia pela USP e coordenador de projetos do IPÊ (Instituto de Pesquisas Ecológicas)

Domingo, 22 de março, foi Dia Mundial da Água. Essa tem sido uma data de conscientização e não de celebração. O Sistema Cantareira, por exemplo, está sem seu nível mais baixo para o fim da estação chuvosa desde 2016 (44%), período logo após uma das mais graves crises hídricas da Região Metropolitana de São Paulo. Embora o Sistema Canteira tenha saído da faixa de restrição, o volume acumulado ainda é baixo para suportar a estação seca. 

Esse não é apenas um problema temporário ou local. O relatório “Falência Global da Água: Vivendo além de nossas capacidades hídricas na era pós-crise”, lançado pela Universidade das Nações Unidas em janeiro, alerta para um cenário de escassez hídrica mundial. 

São três os estágios de degradação de sistemas hídricos, segundo a ONU. O primeiro é o stress hídrico, que consiste em demanda e retirada elevadas em relação a oferta, com impactos reversíveis através de aumento da eficiência e gestão de demanda. O segundo são as crises hídricas, episódios de duração definida, gerenciáveis através de estratégias de mitigação e respostas emergenciais. Finalmente, temos a falência hídrica, um estado persistente e irreversível, em que a sobrecarga do sistema degrada sua capacidade de suporte. Aqui, as condições anteriores do sistema não podem ser restauradas e as estratégias de mitigação de curto prazo não são suficientes.

No caso do Sistema Cantareira, já vivemos o segundo estágio há mais de uma década. E não basta torcer pela chuva. Água é consequência de uma série de ações em diferentes escalas e enquanto não for tratada como o resultado de um processo ecológico, estaremos cada vez mais próximos a um cenário de falência hídrica. 

A integridade do ciclo hidrológico é resultado da capacidade das paisagens de produzir, capturar, armazenar, filtrar e redistribuir a água no tempo e no espaço. Para isso, é preciso trazer ao centro do debate a conexão entre restauração de paisagens e produção de água. A solução não está no céu, está no chão.

Para evitar um cenário de falência hídrica, é preciso fortalecer a produção de água. Isso é possível, mas requer investimento em recuperação de solos degradados ao longo das bacias hidrográficas que abastecem os sistemas de armazenamento. E isso, especialmente em áreas prioritárias para a recarga hídrica e no entorno dos corpos hídricos.


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