Bom dia! Aqui é a Meghie Rodrigues e animada com o ano que começa agora (porque o ano só começa realmente depois do carnaval, não é mesmo?). Vamos falar de Marte, de polilaminina (mas é claro), de jornalismo científico, e de mais um golpe contra a ciência nos Estados Unidos. Na nota da convidada, Larissa Batista fala do estrago ainda vivido pelo Rio Doce, anos depois da tragédia de Mariana. Hoje é terça-feira, 24 de fevereiro de 2026. Boa leitura!
Cinco anos com os olhos em Marte
Na quarta passada, o robô Perseverance, da Nasa, completou 5 anos explorando Marte. O robozinho pousou no planeta vermelho em 18 de fevereiro de 2021 e, desde então, anda coletando amostras de rocha e rególito (uma mistura de rocha quebrada com poeira) por lá. Esses tubos serão trazidos à Terra em uma missão futura para análise. Enquanto esse retorno não acontece, dá para acompanhar o paradeiro da Perseverance até terminar de coletar suas 38 amostras (já há 30 feitas).

Devagar com o andor
Porque pesquisa experimental não é aplicação clínica consolidada, lembra a colega Claudia Collucci na Folha. A polilaminina ainda está em fase de teste de segurança, mas o hype na imprensa e nas mídias sociais faz parecer que encontramos a cura para lesões de medula espinhal. É claro que há de se ter orgulho da ciência nacional e da inovação que vem dela — mas o caminho até resultados sólidos é bem mais longo do que muita gente imagina. A ciência dá respostas para problemas imensos, mas não cria milagres.
Futuro incerto
Há poucos dias a Fapesp anunciou que vai encerrar a publicação impressa da revista Pesquisa Fapesp, um dos veículos mais importantes do jornalismo científico no Brasil. Se a ideia é corte de gastos, a decisão até faz sentido. O que deixou a comunidade do jornalismo de ciência com um pé atrás foi a decisão de fundir a revista com outras iniciativas de comunicação da Fapesp — o que, na prática, pode significar a dispensa de uma redação altamente qualificada. A fusão, por óbvio, também coloca em dúvida a independência editorial da revista — e sem equipe nem independência, na vida real um veículo morre. "Morre não, porque morte é um termo muito pesado. Falece", alguém poderia dizer. Morrer ou falecer, quem perde é a ciência brasileira. Uma lástima.
É o desmonte, é o desmonte
Na edição mais recente da Antes Que Seja Tarde, newsletter de meio ambiente da Agência Pública, a colega Giovana Girardi trouxe mais uma ação do presidente dos EUA para botar a ciência do país contra as cordas. Trump revogou a chamada “constatação de perigo”, ou a ciência por trás do reconhecimento dos EUA (em 2009!) de que gases de efeito estufa fazem mal à saúde. Ou seja: como não vai ter mais controle federal sobre esses poluentes, as emissões, em vez de cair, devem aumentar. É pisar fundo no acelerador de um carro à beira do precipício que chama isso?
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Você viu?
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NOTA DA CONVIDADA ✷
Quando as câmeras se vão, a contaminação fica — e pode chegar ao prato
Por Larissa Ajala Batista, consultora na E-Aware Technologies e doutora em zoologia pela UFPR
Quatro anos após o maior desastre da indústria mineradora mundial, peixes da bacia do Rio Doce ainda apresentavam contaminantes com potencial risco à saúde humana.
As maiores tragédias ambientais não terminam quando as câmeras se vão. Seus efeitos podem se prolongar por anos, persistindo no ambiente e nos organismos vivos.
Em novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão, considerado o maior desastre da indústria mineradora mundial, lançou milhões de metros cúbicos de rejeitos na bacia do Rio Doce. A lama percorreu cerca de 680 quilômetros até o oceano. As imagens chocaram o país. Mas o que permaneceu quando a onda de rejeitos deixou de ocupar as manchetes?
Quatro anos depois (2019), voltamos ao rio para investigar aquilo que não aparece nas fotografias aéreas: a contaminação que se incorpora à cadeia alimentar — e que pode chegar ao prato das pessoas.
Reunimos uma equipe multidisciplinar com pesquisadores da Universidade Federal do Paraná e da Universidade Estadual Paulista, com financiamento da FAPESP, CAPES e CNPq. O estudo contou também com o apoio fundamental de pescadores locais, que conhecem o pulso do rio e nos ajudaram a acessar diferentes pontos da bacia.
Amostramos diferentes espécies de peixes nos setores alto, médio e baixo do rio, durante as estações seca e chuvosa. Detectamos bioacumulação de todos os metais analisados (Al, Ba, Cd, Co, Cr, Cu, Fe, Li, Mn, Ni, Pb e Zn). Ferro e manganês foram os mais prevalentes — elementos naturalmente presentes na região mineralizada do Quadrilátero Ferrífero, mas também intensificados por décadas de atividade mineradora. Cádmio, cromo e chumbo ultrapassaram limites máximos toleráveis.
Também identificamos metabólitos de hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs), compostos orgânicos persistentes e amplamente distribuídos no ambiente que, assim como os metais, podem causar uma série de efeitos adversos sobre os organismos, comprometendo a saúde e a viabilidade de populações ao longo do tempo.
É importante destacar que a contaminação no Rio Doce não começou em 2015. Estudos anteriores já indicavam a presença de metais em sedimentos e solos, inclusive fora da área diretamente atingida pela lama. O rompimento, contudo, adicionou e redistribuiu contaminantes, alterou a morfologia fluvial, favoreceu a ressuspensão de sedimentos e pode ter ampliado sua disponibilidade ao longo da bacia.
Nossa avaliação indicou que, até 2019, o consumo de peixes da área estudada representava potencial risco à saúde humana, incluindo efeitos carcinogênicos e não carcinogênicos. As possíveis fontes de contaminação na bacia incluem atividades agrícolas, operações mineradoras e industriais, além do lançamento de efluentes domésticos e urbanos. Esses vetores podem contribuir tanto para o aporte de metais quanto de HPAs, ampliando a complexidade das pressões químicas sobre o sistema aquático.
Como pesquisadora, acredito que o papel da ciência não é encerrar debates, mas qualificá-los com evidências. Monitorar, medir e comunicar riscos faz parte da responsabilidade pública da pesquisa. No caso do Rio Doce, os dados mostram que impactos ambientais não são eventos pontuais — são processos que se estendem no tempo e exigem acompanhamento contínuo, transparência e compromisso com as populações que dependem do rio.
Acesse o artigo completo (em inglês).