O calor extremo e seu cérebro

O calorão está dando uma trégua em boa parte do Brasil, mas é bom proteger seu cérebro no alto verão

Bom dia! Aqui é a Meghie Rodrigues, meio chocada com o fato de que anteontem era virada do ano, mas janeiro já está no fim. Hoje trago novas sobre um estudo brasileiro que alerta para o perigo de extinção de espécies na Mata Atlântica, crateras misteriosas na Turquia, um exemplo clássico (e assustador) de ciência suja, e o caso curioso de uma vaca suíça muito inteligente. Na nota do convidado, Ricardo Reis fala sobre os efeitos do calorão sobre o cérebro (e como se proteger). Boa leitura!

Extinção na Mata Atlântica
Uma pesquisa da Unicamp aponta que, em 50 anos, os anfíbios da Mata Atlântica podem desaparecer por culpa do avanço das mudanças climáticas. Sapos, rãs e pererecas são muito vulneráveis porque dependem da temperatura ambiente para regular sua própria temperatura e têm pouca capacidade de dispersão. O estudo saiu ano passado na revista Global Change Biology

Crateras misteriosas na Turquia
A Turquia está cheia de crateras gigantes — algumas com 20 metros de profundidade e 40 metros de largura. Algumas já apareciam nos anos 2000, mas a quantidade vem aumentando (e estão chegando perto de áreas habitadas). Secas, mudanças climáticas e o esgotamento de lençóis freáticos são os culpados. Por lá, quando um lençol freático seca, a área acima dele tende a desabar. Geólogos ainda estão estudando o problema.

Um caso bizarro
Uma reportagem deste fim de semana no New York Times dá conta de que os dados genéticos de cerca de 20 mil crianças e adolescentes foram vazados para uso de pesquisadores eugenistas em estudos bastante questionáveis. O National Institutes of Health fazia um estudo grande sobre o impacto de DNA de crianças sobre doenças e comportamento em meados dos anos 2010. Só que os dados não foram muito bem protegidos e caíram nas mãos de pesquisadores que queriam “provar” a superioridade de inteligência de brancos sobre outras raças. Uma coisa medonha. Vale muito a pena ler a reportagem com tempo e atenção.

Uma vaca usando ferramenta?
Pesquisadores na Áustria reportaram, pela primeira vez, o uso de uma ferramenta por uma vaca. Sim, uma vaca. 🥰 Veronika, uma vaca marrom da Suíça, tem 13 anos e consegue usar vassouras para se coçar (e o cabo da vassoura para isso também!). O uso de ferramentas multi-propósito, como pesquisadores consideram este caso, é algo extremamente raro, com registros sólidos apenas entre chimpanzés.

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NOTA DO CONVIDADO ✷

Insolação e mudança climática: uma preocupação crescente num mundo em aquecimento

Por Ricardo Augusto de Melo Reis, professor associado do Laboratório de Neuroquímica do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho/UFRJ

O corpo se adapta a temperaturas extremas por ajustes fisiológicos como o suor/vasodilatação (ao calor) ou tremores/metabolismo (ao frio), essenciais para o dia a dia, na manutenção da homeostase. Os recordes de dias quentes estão sendo quebrados ano a ano. O ano de 2023 foi confirmado como o ano mais quente já registrado, e as projeções indicam que 2024 apresentou temperaturas ainda mais altas. E nas últimas duas semanas, já em 2026, o Rio foi a capital mais quente do país por dias seguidos, o que se tem tornado uma rotina no verão.

As mudanças climáticas estão associadas ao aumento recorde de dias quentes essencialmente devido à influência humana com a emissão de gases de efeito estufa (CO2), aumentando a retenção de calor na atmosfera, com temperaturas mais altas e eventos climáticos extremos mais frequentes e intensos.

Quando a temperatura corporal se mantém superior a 40°C, pode ocorrer insolação, uma grave emergência com consequências ao cérebro. A insolação pode ser clássica (sem esforço), afetando populações vulneráveis, como idosos e crianças, e por esforço, comum entre indivíduos jovens e saudáveis envolvidos em atividades físicas.

Para se ter uma ideia da gravidade, cerca de 170 mil indivíduos sucumbiram à insolação nas últimas duas décadas (dados da OMS), sendo que cerca de 70.000 mortes só na onda de calor de 2003 na Europa, sendo que na França foram registradas cerca de 15.000 mortes, principalmente entre os idosos. A isso, destacam-se vulnerabilidades devido ao despreparo, à falta de ar condicionado e à fraca sensibilização do público, o que levou a mudanças significativas nos sistemas de alerta de calor e nos centros de refrigeração em toda a Europa.

No final de 2023, a jovem Ana Clara Benevides Machado, fã de Taylor Swift, morreu por exaustão térmica, perda excessiva de sais (eletrólitos) e líquidos devido ao calor, que evoluiu para insolação, após passar mal em um show da cantora no estádio Engenhão, zona norte do Rio de Janeiro.

O que se deve fazer para evitar a sobrecarga cerebral em dias de muito calor?

  • Hidratação constante – Beber muita água e soluções eletrolíticas ao longo do dia, mesmo antes de sentir sede. A desidratação afeta diretamente a cognição, concentração e memória.
  • Ambientes frescos – Mantenha-se em locais com ar-condicionado ou ventilação adequada durante as horas mais quentes.
  • Ajuste seu ritmo - Faça tarefas que exigem mais concentração nas horas mais frescas do dia (manhã cedo ou final da tarde). Diminua o ritmo durante os picos de calor e evite exercícios intensos.
  • Alimentação leve - Prefira refeições menores e mais frequentes com frutas, vegetais e alimentos leves.
  • Use roupas leves, claras e de tecidos naturais que permitam a transpiração.
  • Faça pausas regulares em qualquer atividade mental intensa. O cérebro superaquecido precisa de mais tempo de recuperação.
  • Evite álcool e cafeína em excesso - Ambos podem contribuir para desidratação.

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