Os frascos de Darwin

Uma seleção de notícias fantásticas da ciência

Bom dia! Aqui é a Chloé Pinheiro. Hoje trazemos a história de uma cientista brasileira que merece ser mais conhecida, uma empreitada para entender melhor as pesquisas de Darwin e a descoberta de um mundo novo que desafia as concepções atuais sobre planetas. Na nota do convidado, a cientista Bruna Sebben conta mais sobre uma descoberta muito bacana feita por ela seu grupo: a de que a neblina amazônica carrega vida.

Os frascos de Darwin
É difícil conhecer um cientista ou interessado no tema que nunca tenha ouvido falar das míticas expedições de Charles Darwin às Ilhas Galapágos, onde coletou centenas de espécimes e fez observações que culminariam na sua teoria da evolução. Pois agora pesquisadores do Museu de História Natual de Londres utilizaram uma técnica com laser para estudar o conteúdo de alguns dos frascos e os métodos de conserva de Darwin sem precisar abri-los. Entre os achados, foi possível determinar os produtos químicos utilizados e os materiais dos potes que conservam animais há mais de 200 anos.

Patrimônio nacional
A vacina 100% brasileira contra a dengue começou a ser aplicada esse ano em profissionais de saúde e para a população de algumas cidades. E na última semana as redes sociais conheceram a cientista por trás do feito, Neuza Frazzati, que por mais de 15 anos trabalhou no desenvolvimento do imunizante, um projeto que envolveu centenas de experimentos. Ela declarou que a conquista é de "todas as cientistas brasileiras e as mulheres". Recentemente, aliás, a eficácia de uma dose única da vacina foi comprovada em um artigo publicado no New England Journal of Medicine.

Planeta derretido
O telescópio James Webb proporcionou a descoberta de um tipo de planeta que não se encaixa em nenhuma categoria conhecida. Batizado de L 98-59 d, ele foi identificado pela primeira vez em 2019, mas só agora o estudo de sua composição foi divulgado, na Nature. O planeta é basicamente feito de magma. Diferente de outros, como a Terra, que preservam o magma em seu núcleo, esse não se solidificou, e é inteiro pastoso. A atmosfera rica em enxofre é outro diferencial interessante do novo mundo.

Henrietta Lacks
A família de Henrietta Lacks, a mulher negra que teve células retiradas sem consentimento nos anos 1950 e depois replicadas para uso até hoje em diversas pesquisas, ganhou mais um processo nos Estados Unidos. A história dela é um exemplo de racismo e de falhas éticas históricas na ciência. Os termos do acordo não foram divulgados.

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NOTA DO CONVIDADO ✷

A vida invisível do nevoeiro amazônico

Por Bruna Grasielli Sebben, engenheira ambiental, doutoranda no Instituto Max Planck.

Quando pensamos na Amazônia, imaginamos árvores gigantes, rios imensos e uma biodiversidade extraordinária. Mais do que vida macroscópica, existe um mundo invisível que também faz parte desse ecossistema: os microrganismos que circulam na atmosfera, especialmente bactérias e fungos.

Porém, em um ambiente tão competitivo quanto a Amazônia, pequenos detalhes podem fazer a diferença na sua sobrevivência. É neste contexto que entra o nevoeiro, proporcionando uma vantagem, mesmo que temporária, para esses microrganismos.

O nevoeiro é basicamente uma nuvem que se forma muito próxima da superfície. Na Amazônia, ele se forma na copa das árvores quando o ar úmido esfria e o vapor d’água condensa sobre partículas microscópicas presentes no ar. Essas partículas podem ser poeira, sal marinho ou até fragmentos biológicos.

Esse fenômeno acontece principalmente durante a madrugada e nas primeiras horas da manhã, até ser dissipado pela radiação solar. Apesar de ser um fenômeno comum, o papel do nevoeiro nos ecossistemas tropicais ainda é pouco compreendido. A maioria dos estudos sobre o ciclo da água na Amazônia foca na chuva. Mas o nevoeiro também pode transportar água, partículas e organismos microscópicos através da floresta.

Para entender um pouco melhor essa conexão entre nevoeiro e microrganismos, amostras foram coletadas na torre ATTO, um sítio de pesquisa remoto na Amazônia, para posterior análise de seu conteúdo microbiano.

Curiosamente, os resultados mostraram que o nevoeiro amazônico contém uma quantidade significativa de microrganismos. As concentrações chegaram a até 100 mil células microbianas por mililitro de água de nevoeiro.

Esse valor é comparável ao encontrado em nuvens e nevoeiros de outras partes do mundo e indica que o nevoeiro não é apenas um fenômeno físico, mas também pode funcionar como um microhabitat atmosférico para microrganismos. Além disso, as análises mostraram que muitas dessas células estavam metabolicamente ativas, ou seja, potencialmente vivas e capazes de realizar processos biológicos.

Entre os microrganismos identificados, observou-se a presença de espécies de bactérias e fungos que são comuns em solos, plantas e superfícies da floresta, tal como Serratia marcescens e Aspergillus niger.

Muitas vezes responsáveis pela ciclagem de nutrientes, sua presença nas gotículas de nevoeiro pode facilitar sua dispersão e reprodução devido à disponibilidade de água, que os protege da radiação solar e da desidratação, mesmo que temporariamente. Em paralelo, esses microrganismos são transportados pelo vento, podendo se depositar em novas áreas da floresta, dando continuidade ao funcionamento do ecossistema.

Em geral, partículas biológicas têm propriedades químicas que facilitam a condensação do vapor d’água. Isso significa que bactérias e fungos não só estão presentes, mas tambem que podem atuar ativamente como núcleos de condensação para a formação destas gotículas. Assim, entende-se que processos biológicos da floresta podem influenciar diretamente fenômenos atmosféricos.

A Amazônia é fundamental para o clima do planeta. A floresta recicla enormes quantidades de água através da evapotranspiração e influencia os regimes de chuva na América do Sul. Mas mudanças climáticas e desmatamento podem alterar esse sistema.

Temperaturas mais altas, períodos secos mais longos e o aumento da poluição por queimadas podem reduzir a frequência de nevoeiro e, consequentemente, a dispersão microbiana. Ainda não se sabe exatamente qual será o impacto dessas mudanças, que podem inclusive alterar o ciclo de nutrientes da floresta, mas o nevoeiro se mostrou uma peça importante do funcionamento do ecossistema amazônico.

Este estudo é o primeiro a demonstrar de forma detalhada que o nevoeiro amazônico abriga microrganismos viáveis. Mais do que isso, ele mostra que a atmosfera acima da floresta não é apenas um espaço vazio entre o solo e as nuvens. Ela faz parte ativa do ecossistema, conectando processos físicos, químicos e biológicos. Cada gota de nevoeiro pode carregar pequenas comunidades microscópicas — viajantes invisíveis que ajudam a moldar a vida na floresta.


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