Bom dia! Aqui é a Meghie Rodrigues e estou, como muitos de vocês, na contagem regressiva para o carnaval. Se você não está porque já caiu na folia, ainda melhor! Bora encaixar um pouco de ciência nesse pré-carnaval? Hoje começamos falando sobre a aula de Bad Bunny no Super Bowl, a data que nos lembra do combate ao câncer, e a ligação de Jeffrey Epstein com cientistas renomados. Na coluna da convidada, temos uma participação de luxo: Francilene Garcia, presidente da SBPC, fala sobre o panorama da desigualdade de gênero que ainda persiste nas engenharias e na computação. Boa leitura!
Geografia e história
Não faço questão de futebol americano, mas no tradicional intervalo da final do último fim de semana o porto-riquenho Bad Bunny deu uma aula magistral de geografia e história. Além de mostrar muito da nossa experiência como latinoamericanos (perdi tudo naquela criança “dormindo” no meio da festa de casamento), Bad Bunny criticou, veladamente, o descaso histórico dos governos porto-riquenho e estadunidense com a vulnerabilidade em que vivem seus compatriotas. Os postes saindo faíscas eram um lembrete da precariedade da infraestrutura do país, frequentemente atingido por furacões. E a aula de geografia sobre a América no final da apresentação foi sensacional. A él no le falta sazón, com certeza.
Alerta sobre câncer
04 de fevereiro foi o Dia Mundial de Combate ao Câncer e diversos veículos (como a Veja Saúde, que tem por editora a querida Chloé Pinheiro) falaram do assunto. A OMS criou a data para aumentar a visibilidade e a conscientização sobre a doença. Ainda de acordo com a OMS, a doença atinge cerca de 20 milhões de pessoas e vitima outras 10 milhões em cada ano. No Brasil, são 700 mil casos por ano (com destaque para os tumores de mama, próstata, pulmão, cólon e reto). Tabaco, alcool, sedentarismo, sobrepeso e algumas infecções aumentam muito o risco de desenvolvimento da doença — e aqui e aqui há dicas valiosas de prevenção.
Epstein e seus contatos na ciência
Enquanto o mundo fica chocado a cada informação publicada sobre o caso Epstein, esta matéria da revista Nature mostra que o financista, preso por tráfico sexual em 2019, tinha um amplo círculo de conexões também no mundo da ciência. Ele tinha uma lista com nomes de cerca de 30 conexões, entre eles o neurocientista português Antonio Damasio e o Nobel de Física Murray Gell-Mann, que teve papel importante no desenvolvimento da teoria das partículas elementares. Epstein financiou pesquisadores em universidades como Harvard e Princeton — e, por ora, sabe-se pouco sobre quais seriam seus reais interesses. Vale acompanhar.
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NOTA DA CONVIDADA ✷
A ciência que o Brasil não pode desperdiçar: por que mulheres seguem fora das engenharias e da computação
Por Francilene Procópio Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), professora e pesquisadora da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e ex-secretária executiva de CT&I da Paraíba.
A desigualdade de gênero nas ciências duras segue sendo um dos gargalos estruturais mais persistentes do sistema científico brasileiro — e um dos menos enfrentados de forma sistêmica. Embora as mulheres já sejam maioria no ensino superior, esse protagonismo não se reflete nas áreas tradicionalmente associadas às engenharias, à computação e às tecnologias digitais, áreas estratégicas para o desenvolvimento econômico e a soberania tecnológica do País.
Ampliar a presença das mulheres nas engenharias e na computação vai muito além de corrigir a histórica inequidade de gênero; é uma escolha estratégica sobre onde, para quem e com que diversidade o Brasil decide produzir ciência e tecnologia.
Dados consolidados em 2024 pelo Ministério da Educação indicam que apenas 26% dos ingressantes em cursos de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) no Brasil são mulheres.
Nos cursos de Engenharia Mecânica, Engenharia Elétrica e Computação, a presença feminina permanece abaixo de 20%, e em alguns cursos não chega a 15%. A Computação segue como o campo mais desigual: mulheres representam cerca de 15% a 18% das matrículas e das conclusões de curso.
A desigualdade não se limita ao acesso, ela se aprofunda na permanência. Dados divulgados em 2025 mostram que apenas 27% das mulheres que ingressam em cursos STEM concluem a graduação, percentual notavelmente inferior ao masculino. A evasão se intensificou após a pandemia, refletindo fatores estruturais como a sobrecarga de trabalho doméstico, a ausência de políticas de permanência e ambientes acadêmicos pouco acolhedores.
Esse quadro se agrava quando se observa a dimensão territorial da desigualdade. Mulheres que vivem fora dos grandes centros científicos, especialmente nas regiões Norte, Nordeste e no interior do país, enfrentam barreiras adicionais: menor oferta de cursos, infraestrutura laboratorial mais precária, menos oportunidades de iniciação científica, inovação e inserção em redes acadêmicas.
A combinação entre desigualdade de gênero e desigualdade regional produz um duplo filtro que limita a diversidade do sistema científico nacional e reforça assimetrias históricas.
Essa leitura dialoga diretamente com o novo Plano Nacional de Pós-Graduação (PNPG 2024–2028), que incorpora a dimensão territorial como eixo estratégico para a sustentabilidade do sistema. O plano reconhece que a concentração histórica da pós-graduação nos grandes centros do Sudeste e do Sul não é neutra: ela tende a reproduzir desigualdades de gênero, etnia e origem social, especialmente nas engenharias e nas áreas tecnológicas.
Ao defender a interiorização qualificada da pós-graduação, o fortalecimento de programas fora do eixo tradicional e políticas de permanência sensíveis às desigualdades regionais, o PNPG sinaliza que ampliar a presença feminina nas ciências duras passa, necessariamente, por ampliar onde e para quem a ciência é produzida.
No mercado de trabalho, o padrão se repete. Levantamentos de 2024 indicam que as mulheres ocupam cerca de 26% dos postos em tecnologia da informação no Brasil, com forte concentração em funções de menor remuneração e baixa presença em cargos técnicos estratégicos, pesquisa e liderança, um cenário ainda mais restritivo fora do eixo econômico tradicional.
Para a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), enfrentar esse quadro exige políticas estruturais. A SBPC defende que é indispensável implementar políticas institucionais de equidade de gênero, com ações afirmativas, combate efetivo ao assédio e garantia de ambientes seguros e inclusivos nas universidades e nos centros de pesquisa. A SBPC também destaca que o incentivo deve começar cedo: estimular meninas para as carreiras científicas é condição essencial para enfrentar desigualdades históricas e ampliar oportunidades no futuro.
Mais do que uma pauta identitária, a igualdade de gênero nas ciências duras é uma questão de desenvolvimento territorial, qualidade científica e justiça social. A perpetuação de uma cultura excludente enfraquece o próprio sistema científico. Ao afastar mulheres, o país reduz sua capacidade de inovar e abdica de soluções para muitos de seus desafios.
Diversidade e pluralidade são fatores centrais para a excelência da ciência moderna, para sua capacidade de transformação e relevância social. Ignorar esse potencial é um desperdício que o Brasil já não pode se permitir.