Um sopro de esperança

Com sabor colombiano!

Bom dia! Aqui é a Chloé Pinheiro, um pouco otimista com as notícias da conferência de Santa Marta que discute o fim dos combustíveis fósseis. Tem também discussões sobre o Super El Niño, uma descoberta curiosa (mas não inesperada) sobre a evolução humana e aquele catadão maneiro de conteúdos que viralizaram nas redes. Na nota do convidado, Ana Lisboa destaca a exaustão feminina no mercado de trabalho.

Tchau, petróleo
Está acontecendo na Colômbia a Primeira Conferência Internacional para a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, em Santa Marta na Colômbia. Hoje começam o Segmento de Alto Nível, que são as discussões entre chefes de Estado e outras autoridades. Mas já teve bastante coisa interessante por lá, como uma declaração assinada por 250 acadêmicos afirmando que a eliminação do uso de petróleo, gás e carvão deveria ser uma obrigação legal dos países. Também tá rolando uma conferência paralela da sociedade civil, que rendeu outra declaração, exigindo uma transição que considere ações de reparação histórica. O pessoal do Climainfo está fazendo uma ótima cobertura sobre o assunto. Entre outros veículos bacanas, claro!

Destaque para a ciência
Um dos principais legados da conferência, além de ser um marco em si por seu ineditismo, é a criação de um painel científico internacional para monitorar a transição energética global. Mais do que isso, aliás: a ideia é acelerar a conversa com governos e aproximar a academia da elaboração de políticas públicas. A iniciativa é capitaneada pelo brasileiro Carlos Nobre e pelo sueco Johan Rockstrom, dois dos principais nomes da ciência climática mundial, que também trabalharam incessantemente na COP30. A ciência está ocupando lugar de destaque no evento.

Banner promocional com fundo em tons de rosa vibrante e preto. À esquerda, padrões geométricos repetidos (triângulos, círculos, estrelas e outras formas) em linhas. No centro, em destaque, o texto “ANUNCIE NO POLÍGONO”. À direita, sobre fundo escuro, lê-se: “a única newsletter brasileira sobre ciência nas redes sociais.” Abaixo, em destaque, “ACESSE O NOSSO MÍDIA KIT”.
O Polígono é a newsletter de maior audiência do Núcleo e fonte de referência para a comunidade científica brasileira. ANUNCIE COM A GENTE!

Evolução humana
Um novo estudo publicado na Nature mostrou as principais mudanças promovidas pela evolução humana nos últimos 10 mil anos. Entre os achados, o de que estamos cada vez menos calvos (ou seja, não é tudo responsabilidade dos transplantes capilares) e mais ruivos. O trabalho envolveu muita tecnologia e a análise dos genes de milhares de pessoas para diferenciar as mudanças genéticas que realmente aconteceram por pressão do ambiente. Também foram descobertas alterações que nos deixaram mais resistentes a algumas doenças, como o HIV. Mas o fato de que ainda estamos evoluindo não é nenhuma novidade, viu?

Super El Niño
A notícia de um possível "Super El Niño" histórico e com efeitos devastadores para o clima do planeta assustou muita gente há algumas semanas. Mas os tweets sensacionalistas não estão confirmados pela ciência. Ainda é cedo para fazer uma previsão mais acertada de um fenômeno que só dá as caras no segundo semestre. Por enquanto, só dá para dizer que a chance de ter um El Niño é alta, mas sua magnitude está longe de ser compreendida.

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NOTA DA CONVIDADA ✷

As mulheres estão adoecendo para sustentar o trabalho

Por Ana Lisboa, psicanalista e CEO do Grupo Altis

O Brasil registrou 472.328 afastamentos por transtornos mentais em 2024, um salto de 68% em relação ao ano anterior e o maior número em pelo menos dez anos, segundo dados do Ministério da Previdência Social. A maioria desses afastamentos acontece entre mulheres. Esse dado revela, com clareza, o custo invisível de um modelo que segue se sustentando sobre a sobrecarga feminina.

Nos últimos anos, especialmente no cenário pós-pandemia, o trabalho se expandiu para dentro da casa e dissolveu fronteiras que antes separavam o profissional do pessoal. Ao mesmo tempo, nós mulheres ampliamos nossa presença no mercado, ocupamos posições de liderança, empreendemos e passamos a acessar espaços que por muito tempo nos foram negados. Esse avanço acontece junto com a permanência de responsabilidades que nunca deixaram de existir.

A jornada profissional se soma à jornada doméstica, à gestão da vida familiar e à sustentação emocional dos ambientes. Quando uma mulher ocupa tantos lugares ao mesmo tempo, quando tenta equilibrar tantas demandas simultâneas, algo deixa de se sustentar. E, de forma recorrente, como mostram os números atuais, o que cede é a saúde mental.

Eu acompanho isso de perto. Vejo mulheres altamente competentes, produtivas, comprometidas, que entregam resultados consistentes e seguem funcionando mesmo quando já estão no limite. Elas organizam equipes, projetos e negócios ao longo do dia e, ao mesmo tempo, seguem responsáveis pela dinâmica da casa, pelas relações, pela rotina dos filhos, pelo cuidado com os outros. Existe uma carga que não aparece em relatórios, que não entra em metas, mas que sustenta o funcionamento de tudo.

Essa carga exige presença constante, atenção e energia psíquica. Ela se constrói no detalhe, no acúmulo, na repetição diária de responsabilidades que se sobrepõem e se naturalizam. Ao longo do tempo, esse acúmulo se transforma em exaustão.

O que hoje aparece nos dados como burnout ou afastamento por transtornos mentais é resultado de um processo contínuo de sustentação sem divisão proporcional. O corpo e a mente passam a sinalizar um limite que já vinha sendo ultrapassado há muito tempo.

Quando olho para esse cenário, fica evidente que a saúde mental precisa ocupar um lugar central nas discussões sobre trabalho, liderança e produtividade. Ela se conecta diretamente à forma como as demandas são distribuídas, às expectativas sociais construídas sobre o papel da mulher e à ausência de redes de sustentação mais equilibradas.

Não existe avanço consistente em nenhuma sociedade quando a sobrecarga emocional feminina segue naturalizada como parte do caminho. Essa sobrecarga permanece, muitas vezes, invisível, e essa invisibilidade impede que ela seja nomeada, reconhecida e transformada.

O aumento dos afastamentos por transtornos mentais entre mulheres revela um modelo que opera no limite. Um modelo que cresce, produz e avança, mas que se sustenta sobre um desgaste contínuo. E talvez o ponto mais difícil de encarar seja este: enquanto for necessário adoecer para dar conta de tudo, o problema nunca será individual. Ele sempre será estrutural.


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