Totalmente premiadas

Notícias sobre mulheres na ciência e mais um "calma, gente!"

Bom dia! Aqui é a Chloé Pinheiro. Se você pulou bastante Carnaval, saiba que nós também! Mas deixamos tudo no jeito para você se informar nessa quarta de cinzas. Vamos falar de avanços e desafios das cientistas, de polêmicas e boas novas da ciência brazuca. Na nota do convidado, a Kari Lima explica sobre a relação entre frio extremo e mudanças climáticas.

Polilaminina
A Folha de S. Paulo fez uma matéria sobre mortes de pacientes que receberam a polilaminina (aquela molécula que "faz as pessoas voltarem a andar") via ação judicial. A história revoltou a internet, que já montou todo um culto ao medicamento em desenvolvimento e à sua criadora, a cientista Tatiana Sampaio – com uma ajudinha da imprensa, claro. A Cristália, que tem os direitos de exploração comercial do "milagre", afirmou que as mortes não têm a ver com a polilaminina.

Calma
Ainda é cedo para afirmar que o medicamento funciona. Não existe um estudo em humanos revisado por pares e publicado em um periódico científico que ateste isso. A polilaminina, apesar de ser estudada há mais de 20 anos, está começando a dar seus primeiros passos em pessoas agora, com a aprovação do início dos estudos de segurança (que não começaram!). A história está cheia de exemplos do quão ruim pode ser botar o carro na frente dos bois.

Totalmente premiadas
A 7ª edição do Prêmio Carolina Bori Ciência & Mulher entregou troféus a cientistas que fizeram e fazem história no Brasil. Na categoria Exatas e Ciências da Terra, ganhou a física Iris Concepcion Linares de Torriani, referência em estudos com luz síncrotron. Nas Biológicas, Luisa Lina Villa, autoridade mundial no vírus HPV, que figura em listas de cientistas mais influentes do mundo. Em Humanidades, o reconhecimento ficou para Anna Mae Barbosa, que dedica sua carreira à arte-educação.

Ainda falta
A cerimônia ocorreu no último dia 11, o Dia Internacional das Meninas e Mulheres na Ciência. Data fortuita e oportunidade de celebrar quem já chegou lá, como vários perfis nas redes fizeram, mas também de relembrar que ainda operamos em termos muito desiguais. Sério gente, tem muita história bacana que ainda precisa ser mais conhecida (que tal começar por essa? Ou essa?).

Cota masculina
Pra não dizer que não falei dos homens, o cientista brasileiro Luciano Moreira é o único brasileiro na lista da revista TIME das 100 pessoas mais influentes da saúde em 2026. Ele desenvolveu o método Wolbachia, que usa uma bactéria para combater a dengue. Mosquitos infectados com a wolbachia, que não conseguem transmitir a dengue, são liberados nas cidades e disseminam a infecção para as próxima gerações de Aedes aegypti.

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NOTA DO CONVIDADO ✷

Os extremos de frio e o aquecimento global

Karina Bruno Lima, doutora em climatologia/climatologista, divulgadora de ciência e diretora científica da APECS-Brasil (comitê nacional da Associação de Pesquisadores Polares em Início de Carreira)

Uma onda de frio severa atinge o Hemisfério Norte e vem sendo usada, mais uma vez, como ferramenta para disseminar o negacionismo em relação às mudanças climáticas. Uma das táticas da desinformação é confundir meteorologia (eventos de curto prazo) com clima (tendência de longo prazo) e, para combatê-la, é importante compreender os fenômenos e o contexto de um mundo mais quente.

O vórtice polar é uma circulação de ar, como um anel, de fortes ventos frios que circunda o Polo Norte na estratosfera (camada superior da atmosfera) a cerca de 16 a 50 km de altitude. Este anel está conectado à corrente de jato polar que flui logo abaixo, na troposfera (a camada onde vivemos).

Quando o vórtice está estável, ele induz a corrente de jato polar a conter esse ar frio no Ártico, mas quando enfraquece ou se divide, a corrente de jato abaixo se torna ondulada e permite que ar mais quente adentre o Ártico enquanto o ar polar invade latitudes médias, podendo atingir a América do Norte, Europa e Ásia.

A ciência está buscando entender se as mudanças climáticas vêm causando episódios de distorção do vórtice polar e um dos fatores que pode estar contribuindo é justamente o rápido aquecimento do Ártico devido às mudanças climáticas. Mas ainda não há um consenso, pois muitos fatores podem afetar o vórtice polar e modelos não concordam totalmente sobre seu comportamento em projeções para o futuro. 

O que é inequívoco e um consenso científico é o fato de que a Terra está aquecendo devido às emissões humanas de gases de efeito estufa. Consequentemente, a quantidade de eventos extremos de frio está diminuindo globalmente, mas isso não quer dizer que eles não acontecerão.

Mesmo em um contexto mais quente, ondas de frio podem continuar severas em certos períodos e locais. Além disso, o aquecimento dos oceanos aumenta a evaporação e a quantidade de umidade na atmosfera, bem como uma atmosfera mais quente tem também a capacidade de carregar mais umidade, que se torna combustível para tempestades de inverno ainda mais intensas e perigosas.

É fundamental compreender que esses eventos pontuais de frio não negam as mudanças climáticas e que a ocorrência deles não invalida o fato de que a temperatura média global continua a subir de forma alarmante. O aquecimento da Terra não elimina a ocorrência destes eventos, mas altera padrões climáticos e torna sua dinâmica mais instável.


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